segunda-feira, 22 de junho de 2015

Redução de Danos, Política e Psicanálise


As estratégias de Redução de Danos entraram na pauta das políticas públicas no Brasil no final do século passado - referida à preocupação com a transmissão do HIV -, passando a constituir-se como a principal forma de atenção ao usuário abusivo de drogas a partir de 2003, quando o Ministério da Saúde publicou sua Política de Atenção aos Usuários de Álcool e outras Drogas. O foco passou a ser todos os danos evitáveis do uso de drogas: danos em território, danos à saúde, danos sociais. E a ação não se restringia à distribuição de insumos de saúde, mas apostava na presença constante da equipe junto aos usuários. 

“Parar de fumar para conversar” já adiava o uso da droga. A equipe, agindo como ponte, lançava uma aposta no laço social. E uma população à margem do sistema de saúde podia se inserir na rede. Uma vez na rede, novas estratégias foram criadas, além do adiamento do uso: abstinência de uma das drogas de uso, acompanhamento das famílias, tratamento das comorbidades, uso controlado, etc. 

Houve um processo de ampliação e definição da Redução de Danos como um novo paradigma ético, clínico e político para a política pública brasileira de saúde de álcool e outras drogas, em oposição às políticas antidrogas que tiveram suas bases fundadas no período ditatorial. Não por coincidência, há uma proximidade entre a política antidrogas e o paradigma da abstinência. A abstinência é um eixo articulador entre a justiça, a psiquiatria e a moral religiosa que, em sua articulação, definem uma política de tratamento, um paradigma, que se realiza sob a forma de instituições coercitivas, em tudo diversas do que propõe a Redução de Danos. 

Não há dúvidas do avanço que representou a política de Redução de Danos na Saúde Pública. A comparação com os outros modelos a coloca em posição ética inquestionável. O modelo jurídico-moral, assentado em uma visão dualista da realidade, aponta para medidas “educativas” e preventivas, articuladas a princípios repressivos. O modelo médico, à semelhança de como lida com as doenças infecciosas, trata a droga como “agente”, e o indivíduo como “hospedeiro”. No modelo sociocultural, por outro lado, a droga adquire significado e importância não tanto pelas suas propriedades, mas pela maneira como cada sociedade define sua utilização, e o uso de drogas ilícitas é visto como um desvio do comportamento normal. 

Os tratamentos em nosso meio seguem esses modelos, e constituem-se basicamente de abordagens médico-farmacológicas (hospitalização para desintoxicação e tratamento de doenças relacionadas à dependência; tratamento psiquiátrico convencional; uso de drogas psiquiátricas; tratamento não-psiquiátrico com clínico geral; terapia de manutenção com opiáceos e terapias com antagonistas), terapia comportamental e aconselhamentos baseados no uso da autoridade racional. Por seu turno, as abordagens socioculturais (metodologias seguidas pelas Comunidades Terapêuticas e os Grupos de Narcóticos Anônimos), resvalam quase sempre para intervenções baseadas em abordagens religiosas, ainda que possa se incluir o trabalho de médicos e psicólogos, quase sempre travestidos de “conselheiros”. 

A proposta do CAPUT segue outra política. A política da psicanálise, que é o sintoma. Percebemos a droga como algo que produz no corpo uma experiência de excesso, mas nos interessamos menos pela droga, e mais por esse gozo do corpo. Nesse sentido, adotamos a posição do avesso: do avesso do discurso do mestre, e da invalidação das reivindicações contra o discurso do mestre (em “Televisão”, Lacan explica que protestar contra o discurso do mestre já é entrar nele, mesmo que seja a título de protesto). Que mestre? A Ciência, o Saber Médico, o Mercado, a Moda, a Tecnologia... E - por que não? - as Políticas de Saúde. Ou seja, tudo que universaliza. Podemos entender - sem qualquer julgamento de valor -, por exemplo, a “Política de Atenção aos Usuários de Álcool e outras Drogas” como uma universalização, e não é sem motivo que ela leva a uma universalização na proposta de tratamento: Redução de Danos . No modelo científico, a drogadição é doença, e a cura é abstinência. E assim por diante...  

A universalização engendra a segregação, nega o particular, o singular. A Psicanálise maneja as discordâncias ao mudar o discurso, a maneira de dizer. Contra a “eficácia” do todo, se apóia na lógica da fronteira, do não-todo, da vizinhança. Então, não se trata d’A Droga, mas de cada droga, para cada sujeito. Isso é a noção de vizinhança. Não há solução universal, teremos que passar ao múltiplo, a uma tolerância em relação ao impossível. Isso equivale a escutar os usuários um a um. Montar projetos terapêuticos únicos. Estruturar a instituição a cada vez, para cada um que chega. Aceitar a queda dos ideais na contemporaneidade, para entender a ascensão dos objetos de consumo e de gozo, a prevalência do imaginário sobre o simbólico, e introduzir nos adolescentes um gosto pela fala.  Para que produza seu sintoma. Para que “desembole na ideia” (termo juvenil para se referir a resolver os problemas com o diálogo) o seu fantasma. 

Nesse sentido, ao não colocar em primeiro plano um ideal – o da abstinência, por exemplo – estaríamos mais próximos de uma política de redução de danos (em letras minúsculas), daquilo que é possível para cada um, em cada momento, na invenção de soluções parciais. Ou de “redução de gozo”, para ser mais lacaniano.




domingo, 21 de junho de 2015

Christina Fornaciari e o corpo remexido

Christina Fornaciari propõe reflexões acerca do corpo como lugar de expressão e experiência estético-política. O corpo é esse elemento mediador de vivências, e o artista, na oficina que ela propõe no Caput, não é um "criador de objetos", nem o adolescente-aluno um passivo fruidor da arte. O oficineiro é um propositor de ações, um ativador de experiências, cuja estética sensorial se enlaça na ação do outro. Uma estética relacional como conceitua Nicolas Bourriaud, que produz modos de sociabilidade entre os adolescentes.Imprevisível e inconstante como seu público. Tudo converge para um único lugar: o corpo. O corpo como espaço de potência. Um corpo em processo, produzido no fazer. "É na falta de solução, que o corpo se resolve", explica Christina acerca de uma dimensão da existência que se dá na experimentação.



Invenção: o divertido "andar de John Lennon" permite circular pela cidade hostil. Um jovem assustado com o Olhar do Outro, com o julgamento, a crítica, o enigma do que o Outro quer de nós. Um novo uso do corpo cria uma nova narrativa, e um modo de ocupação da cidade mais confiante. Fazer um andar/fazer-se John Lennon recria a relação com o Olhar do Mundo e com a autoimagem.





Atividade "Se eu fosse Francis Bacon", a partir de desenhos desse pintor feitos na década de 1980, que foram presenteados ao seu então namorado, o jornalista italiano Cristiano Lovatelli-Ravarino, e só mostrados ao público em 2000. Na oficina, além de conhecer a obra, falou-se da vida de Bacon, e da sua inspiração em tabus e dores humanas. O esforço, sem verbalização, foi o de usar a técnica com que Bacon criava seus desenhos (um fundo com cores lisas, feito com colagem, sobre o qual se insere o desenho a lápis) e o de buscar trazer para o trabalho os próprios conflitos dos meninos, o que seria tabu para eles.





Performance "O corpo e a casa", inspirada no trabalho do Nino Cais. Sem resgatar a memória de uma casa específica, os adolescentes trabalharam com a ideia da casa como um fruto da imaginação, se relacionando, física e afetivamente, com alguns objetos domésticos: flores, eltrodomésticos, cheleira, bule, vassourinha, avental, espanador, pano de prato... Autorretrato. Esculturas. O rosto escondido, o corpo como parte de uma montagem. Camuflagem (o rosto em meio a massas, cores, volumes e texturas). Jogo doméstico com os objetos do dia a dia. os objetos convidam o corpo a estar ali. O corpo existe como um imã, que capta as coisas do entorno. Corpo-coisa. Corpo-pedestal. Corpo-base. 






"Invisibilidade social": releitura de Paulo Nazareth. A atividade da oficina foi orientada por uma pesquisa da obra desse artista, escolhendo especificamente uma forma de expressão que "apaga" o rosto. Isso se deveu ao fato de um dos meninos ter chegado com a cabeça e as sobrancelhas totalmente raspadas, dizendo que era para mostrar que estava "bolado", "revoltado". Rosto raspado = revolta. A arte apresenta outros modos de representar a revolta. 


"Intervenções na natureza", inspirada pela obra de João Castilho. Alfinete, grampo, papel, fita. O jardim do Caput ganha esculturas inusitadas, efêmeras, objetos rasgados e costurados, rompidos e colados, deslocados e restaurados. Linhas e pontos. Conflito e diálogo. Furos, frestas, recombinações. Natureza e artefatos.





"Esculturas de 1 minuto", inspiradas em Erwin Wurm. Equilíbrio instável. A força do corpo sobre as leis da gravidade, gerando novas relações com os objetos e questionando a própria definição de escultura. A insustentabilidade (tema que os adolescentes do Caput conhecem bem, da própria vida)








"Carinho no saquinho". Intervenção na cidade. Quem é visto como aquele que tira agora dá (carinho). Tudo foi criação dos meninos, motivados pela Christina, a partir de uma ideia do Luís Couto, psiquiatra do Caput, que sugeriu que experimentassem intervir na rua, para ver a reação das pessoas à aproximação deles (os meninos trazem sempre essa questão de como são vistos na cidade: como incômodo ou como ameaça). Os adolescentes falam sobre ser jovem, negro e pobre na nossa cidade: "as pessoas, só de ver a gente na rua, já saem pro lado, como se a gente fosse assaltar elas...se eu fosse playboy branquinho, não tinha nada disso"... A ideia da intervenção era provocar surpresa com um gesto gentil e palavras positivas, que resultou nesses saquinhos. O nome da atividade é pura irreverência adolescente. 







O jenipapo é fruto do jenipapeiro (Genipa americana), tendo sofrido uma transmutação do G, do nome científico, em J da linguagem vulgar. Para aumentar a confusão vem "O Pato", de Vinicius, com jota, e o "Genipapo Absoluto", do Caetano, com gê. Pelas regras da ortografia, usa-se o jota nas palavras de origem indígena, africana ou árabe, o que explica a transformação da nossa genipa em jenipapo, configurando-se portanto esta grafia com G em autêntica e perigosa subversão de valores.
Christina Fornaciari fez uma "oficina de jenipapo". Levou tinta da fruta, explicou o processo de feitura dessa tinta e contou que ela é usada pelos índios como tatuagem natural, aplicada em rituais de guerra, fertilidade, etc... e que a pintura sai da pele em mais ou menos 2 semanas. A própria Christina estava com desenhos feitos em seu corpo pela Maria, uma índia da etnia Pataxó.
Alguns adolescentes do Caput quiseram se tatuar, outros desenvolveram uma técnica muito interessante de desenho com barbante embebido na tinta de jenipapo e depois transferido para o papel. O resultado? Elegante, delicado e doce, como tudo o que vem do jenipapeiro ( e da Christina)...

"Como será pois se ardiam fogueiras 
Com olhos de areia quem viu
Praias, paixões fevereiras
Não dizem o que junhos de fumaça e frio
Onde e quando é genipapo absoluto
Meu pai, seu tanino, seu mel
Prensa, esperança, sofrer prazeria
Promessa, poesia, Mabel" (Caetano Veloso)




"Lá vem o Pato
Pata aqui, pata acolá
Lá vem o Pato
Para ver o que é que há
(...)
Comeu um pedaço
De jenipapo
Ficou engasgado
Com dor no papo
Caiu no poço
Quebrou a tigela
Tantas fez o moço
Que foi pra panela" (Vinicius de Morais)

sábado, 13 de junho de 2015

Continuidade

No dia 29 de setembro de 2012, o CAPUT iniciou suas atividades. Misto de projeto social e clínica psicanalítica, o novo serviço surpreendeu até mesmo seus realizadores, pelo alcance que teve junto ao público juvenil. Pela primeira vez na cidade, adolescentes com histórico social e psíquico complicado não só aderiam, como demandavam atendimento.
"Aqui vocês perguntam, não fazem igual nos outros lugares, que parece que o pessoal já sabe quem a gente é, qual é o problema da gente, e sai tacando remédio", disse nosso primeiro paciente, "Dá um jeito aí, se eu não parar com a cocaína, vou morrer; tenho que pedir é aqui mesmo, porque é o CAPUT que faz o que minha família devia fazer", afirmou outro, em momento de crise, na semana passada.
São várias histórias de construção de um PROJETO DE VIDA, diferente daquele que parece ser o destino de quem é jovem, pobre e negro, e que tem passagem pelo tráfico de drogas, os famosos 3 "C": cadeia, cadeira de rodas ou caixão.
Hoje, com 194 adolescentes entre 14 e 18 anos, provenientes de todos os cantos da cidade - e sem outro lugar para se tratar sequer próximo do que se tornou o CAPUT para eles - estamos aguardando a definição da continuidade do projeto, que sairá de uma reunião decisiva, da qual participam os responsáveis pelo financiamento do serviço.
Como dizem nossos meninos, tomara que a parada não amargue, que não role treta e que fique tudo pela ordi!

Festas no Caput

  

Os Toxicosplasmoses: Festa de fim de ano no Caput! Um momento emocionante do lançamento mundial da banda "Os Toxicosplasmoses". A banda era composta pelos psicólogos e psiquiatras do Caput, que quiseram homenagear os adolescentes que fazem tratamento na instituição - nesse dia, estavam presentes 44 deles -, com sua música.
O carinho foi bem recebido, já a música...
(segundo alguns meninos, aquilo era "rock 'n' Roll, música de velho")




Depois do show dos Toxicosplasmoses, um bailinho, que ninguém é de ferro...




Já a festa "Mil Fita Caput Fest" foi um encontro para assistir ao primeiro filme produzido pela oficina de Cinema do Caput, "Fantasma", do Gustavo Jardim. 


Tem mil problemas, mil fitas, mil capa pra embaçar

Mil bala pra atirar, mil revólver pra comprar
Mil quilos pra vender, mais de mil pra vim pagar
Vi uns mil morrer assim, mil motivos pra parar




O encontro fora da rotina da instituição, em uma festa, apresenta e revela outras formas de sociabilidade, outras facilidades de expressão. Quem nunca fala, canta. Quem não se mexe, dança. Quem não é nada, pode se sentir um MC. 


Por estar ligada a algo do desregramento de todos os sentidos, a adolescência é o tempo da criação, da arte, o tempo em que o jovem sujeito tenta encontrar aquilo que de seu ser pode se traduzir à sua maneira.

Como um corpo enoda a linguagem?

Como o adolescente lida com os efeitos do encontro do sujeito com o desejo sexual?

Qual é sua margem de manobra entre os sobressaltos que surgem e a herança de sua infância?

[questões do Lacadée que nos vieram à mente durante a MIL FITA CAPUT FEST, que aconteceu no dia 8 de abril]



 


Não é à toa que os meninos do CAPUT se vinculam ao tratamento, que produz atos analíticos tão bem vindos, atos analíticos amorosos, advindos de um amor que nos faz não recuar diante do Real. Há uma coragem nessa equipe, que é fruto de um desejo de analista muito digno: um desejo que surge na beira do precipício, entre o Simbólico e o Real, um desejo que sustenta o laço social necessário para que esses jovens não sucumbam. 


(festa cubana no CAPUT: ritmos e sabores revolucionários)

O CAPUT é essa rumba, essa dança generosa que ativa a potência de vida. Assim seja. Saravá, Amém e Salve! Salve!

A festa, ato coletivo por excelência, é não só o elemento que enfeixa e organiza todos os acontecimentos do CAPUT, mas também o espaço privilegiado que arranca da destruição e da morte o tempo da experiência. Longe de comemorar uma memória imediata, a festa assinala um momento acima do tempo e da crise, possibilitando o resgate do irredimido e do irrealizado. Desde a tradição da poesia oral na Grécia arcaica, em que o canto do poeta instaura realidade ao mundo,encontramos Tália, a deusa festa - uma das musas, as filhas da Memória -, como condição social da existência da poesia.

"Uma festa é que devia de durar sempre sem-fim; mas o que há, de rente, de todo dia, é o trabalho" (Guimarães Rosa, "Uma estória de amor").

Ao trabalho, então, moçada! 

MUDAnça [o jardim dançante de Núria Manresa]






   Projeto "MUDAnça" é a oficina da Núria Manresa, arquiteta e paisagista, com os meninos do CAPUT. Estão, há meses, envolvidos com nosso jardim de inverno. No primeiro dia de oficina, trocaram opiniões sobre possibilidades, conversaram e colocaram as ideias no papel. Alguns meninos fizeram desenhos relacionados com o espaço, organizando algumas das ideias discutidas, entre elas, vasos suspensos pendurados no pergolado, hera e graffiti na parede. Outros meninos, enquanto isso, faziam objetos decorativos (pires pintado, colar de canudinhos, pintura de base das das latas de spray que servirão como vasos). No segundo dia, os meninos pintaram com cores as latas que estavam com primer branco, furaram o fundo de algumas latas e começaram atecer um macramê com o cordão de rolo que servirá para pendurar as latas no pergolado. No terceiro dia, acabou-se de furar as latas, plantar as suculentas, tecer o macramê, finalizando o jardim suspenso, que é a primeira etapa do projeto. 


 A segunda etapa foi dar conta dos canteiros (erva daninha roxa, hera e espada de São Jorge) e do piso de pallets e da parede do fundo.O projeto de um deck feito com pallets, com espaço para plantas, vem sendo desenvolvido há semanas. Chegou a hora da execução.
O pallet utilizado para viabilizar a otimização do transporte de cargas em espaços comerciais é reinventado pelos meninos do CAPUT para significar, por sua obra, um saber-fazer pessoal. Como diria Michel de Certeau, trabalhar com a reciclagem, a sucata, realiza "golpes" no terreno da ordem estabelecida, desvia para fins próprios, com criatividade e liberdade (principalmente por não estar preso a fins lucrativos), o que estava a serviço do capital. Uma generosa economia do dom, uma ética da invenção de novos usos se opondo ao que se destina ao tempo curto do descarte.
Trabalho ao som do funk, quase-dança: gratuita e alegre.
A intervenção proposta por sua oficina transcende sua locação imediata e remete ao território da infância, da instabilidade adolescente, da reconfiguração do espaço de tratamento.
Por fim, uma gangorra.
Para provocar nossa percepção para situações não óbvias. Para estimular um jogo de dois, do que balança e do que empurra. Para convidar o corpo ao vaivém. Para revelar a alegria.









Oficina de graffiti [com Pedro Ninja]




O nascimento do menino


Um intervalo na escuridão faz nascerem as coisas no mundo. No universo sem lugar para o divisível, ganha o jogo aquilo que é visível: dar à luz foi, antes de ser metáfora, uma possibilidade de deixar de ser supérfluo. Um incômodo na retina que provoca a língua a libertar uma palavra. A imagem, logo que nasce, ainda invertida, exige que o corpo expulse um nome. No reino das palavras presas, um intervalo na respiração é a dúvida da vida. – Respira fundo, prende, solta de-va-gar... Entre uma batida e outra do coração mora o susto. A expectativa que resiste entre o tum e o tá faz o tempo esticar o segundo. A próxima bulha só existirá se se suporta a pausa. Um intervalo no abandono é um sopro de esperança. A possibilidade de inventar um nome ali onde só habitava o vazio. Um intervalo na correria e ali está a mágica.
Ele chegou para um atendimento ao final do dia. Havia sido um desses dias sem jeito, sem tempo, sem pausa, em que quase nada germina. Choveu, mas nada molhou porque ninguém viu. Chamou o médico pelo nome e disse que estava melhor porque conseguira dormir à noite – este intervalo precioso na prisão. Eles se conheceram quando o menino tinha treze anos e existia na rua. Hoje, com quinze, as palavras aprisionadas não lhe dão a garantia da vida.
Como de costume, eles se assentaram para conversar, olharam-se e o menino tinha uma questão:
- O que você carrega na sua bolsa de médico?
- São as coisas que uso pra trabalhar.
Curioso esse menino. Ele franziu a testa, não ficou satisfeito com a resposta. O menino se lembrou do tempo em que coisava na rua e seu mundo era a pracinha da Santa Casa, o vidro com um pouco de thinner e algumas lembranças para serem desmanchadas. Foi nessa época que ele conheceu o médico. Mas era um tempo em que o trabalho do menino era para manter presa a palavra. Apesar do esforço, a receita era simples: thinner, pulmões e ninguém para escutá-lo.
O menino fez uma pausa, pensou, e arriscou libertar palavras perigosas. Saiu em forma de pergunta, foi como conseguiu:
- Você tem aquele aparelho de escutar o coração pra saber se a gente tá vivo ou morto?
- Tenho sim. Você sabe o nome desse aparelho?
- Não... Qual que é?
- Estetoscópio.
O médico pensou que fosse preciso começar a dar nomes às coisas, mas o menino estava decidido a arriscar mais.
- Posso ouvir meu coração?
Não pediu ao médico que o examinasse. Estava farto de pessoas que nunca lhe deram garantia alguma. A irmã, único contato que tinha, há semanas não o visitava. Estava só no mundo, um lugar sem intervalo na tristeza. Decidiu então que ele mesmo iria verificar o seu corpo. O médico lhe entregou o estetoscópio e, meio desajeitado, o menino tentou encaixá-lo nos ouvidos. Colocou sobre o peito e constatou surpreso:
- Dá pra ouvir! Mas é baixinho, né?
Devolveu o aparelho e se lembrou que há algum tempo um outro médico lhe dissera que tinha um sopro no coração. O menino quis saber se soprar um coração é bom ou ruim. Tem toda razão: afinal, um sopro sobre a ferida é um intervalo na dor, um sopro na brasa é o avivamento da chama e um sopro na vela, a morte da luz. Havia uma esperança: se ao menos um sopro no coração fosse um alívio no abandono... Um sopro de alívio! Como ele queria isso... Ah!
O menino se calou. Talvez estivesse inseguro, havia libertado palavras demais. O médico esperou, eram tempos difíceis ao sul do Equador. Equilíbrio não havia, a linha determinava que tudo permanecia desigual. O médico insistiu e perguntou ao menino se este se lembrava do nome do aparelho, dito há pouco. Ele se esforçou:
- Microscópio é pra ver bactéria... É telescópio?
O médico lhe disse que telescópio era para ver o céu. O menino então falou da vontade de ver novamente a lua. Onde estava preso não havia janela que lhe permitissevê-la. A grade é um intervalo na poesia. E estava preso. É fato que o menino desacontecera na rua por anos, mas lá também quase não via a lua:
- Será que um dia vou conseguir parar de usar thinner?
Quando estava no mundo das coisas que podia ver, o menino se esforçava para se apagar. Na rua, livre, se exilava no thinner.E nessa prisão não há grades, nem lua, nem poesia. Nem prosa, nem nada. Só um cheiro forte de napalm que fazia o apocalipse acontecer a cada inspiração. Agora!
Puxa!
(...)
De novo!
( )
O que houve de novo naquele dia, foi uma vontade. Parece que surgiu ali, naquela conversa. O menino queria acampar sobre o teto do consultório do médico e passar a noite vendo a lua. Sorriu. Mas se lembrou que estava preso. Fechou o sembante, olhou para baixo. Não conseguiu se lembrar do nome do aparelho, mas o pediu novamente. Posicionou o aparelho no ouvido, a outra extremidade no peito. Escutou atentamente, estava sério. Perguntou se era possível ouvir a cabeça. Colocou o aparelho na testa, ficou em silêncio... Esperou... Nada. Percorreu o corpo com o estetoscópio. Tentou ouvir a mão, pacientemente passou para o braço, depois o ombro, a barriga. Estava ouvindo! Tinha som a barriga! Sorriu, surpreso.
- O que é que tem aqui dentro? Acho que é útero que chama... É o lugar para onde vai a comida. Você sabe o que é menopausa?
(Ele havia ouvido falar que era coisa de mulher).
Colocou finalmente o aparelho sobre o tórax e conseguiu ouvir o som do ar. Que alívio!
- E aí? Você está vivo ou morto? - perguntou o médico.
- Estou vivo. Mas sei fingir de morto.
- Como é isso?
- Sei cair no chão de uma vez, como um morto. Às vezes faço isso.
- Isso não dói?
- Dói.Mas a gente acostuma.
O menino levantou, vivo!, percorreu a sala de atendimento. Disse que as paredes estavam muito brancas.
- Esta sala está triste. Precisa colocar mais cor aqui. Vocês podiam encher esse armário de livros, pintar as paredes.
Trocou as cadeiras de lugar, arrumou a mesa. Afinal, ali se deu um acontecimento mágico. Foi ali que o menino descoisou, nasceu. Naquele dia, por aqueles instantes. Mas sua vida continuou sem muita garantia e era preciso retornar.
Um intervalo na escuta: até a próxima semana.

Luís Fernando Duarte Couto
Maio/15